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Uma Nova Visão para a Cracolândia: Abordagem Humanizada Propõe Mudanças nas Políticas Públicas

Fernanda Valente 
Em meio a um histórico de intervenções frequentemente punitivas, a Cracolândia, em São Paulo, ganha uma nova perspectiva através da pesquisa do professor Pedro Paulo Gomes Pereira, antropólogo e docente do Departamento de Medicina Preventiva da Escola Paulista de Medicina da Unifesp. Com mais de uma década de estudo sobre a região, Pereira propõe uma abordagem humanizada que busca entender as complexidades sociais e individuais dos frequentadores, em contraste com as estratégias tradicionais que têm falhado em oferecer soluções efetivas.
Imagem: Professor da Unifesp - Campus São Paulo propõe abordagem humanizada e critica políticas públicas vigentes / Divulgação

Desde os anos 1990, a Cracolândia se tornou um foco de atenção midiática e de políticas públicas, geralmente centradas em ações de repressão e limpeza da área, sem abordar as raízes do problema. Segundo Pereira, essas iniciativas não apenas ignoram as histórias e realidades dos usuários, mas também reforçam a exclusão social, perpetuando um ciclo de marginalização. “Essas pessoas não são apenas estatísticas; cada uma possui uma história e fatores que as levaram até ali”, afirma o professor.
A pesquisa de Pereira examina a trajetória das políticas públicas na Cracolândia, revelando que muitas delas são transitórias e vinculadas a interesses políticos momentâneos, em vez de uma estratégia de Estado consistente. Essa falta de continuidade resulta em intervenções que muitas vezes estigmatizam os usuários e não atendem às suas necessidades reais.
Um dos aspectos mais perturbadores que o estudo destaca é a influência da mídia e do mercado imobiliário nas decisões políticas. A cobertura frequente da Cracolândia tem alimentado uma narrativa negativa, que justifica medidas punitivas e promessas de revitalização urbana, mas que na prática muitas vezes resulta em deslocamento e marginalização ainda maiores. Pereira critica essa “exploração político-midiática”, que não só estigmatiza os usuários, mas também oculta a complexidade social da região.
Para o professor, é imprescindível uma mudança de paradigma nas políticas públicas. Ele defende uma abordagem integrada que considere não apenas a saúde e a assistência social, mas também a reabilitação e o desenvolvimento comunitário. “É fundamental que o foco seja o sujeito e não apenas o problema”, enfatiza, apontando para a necessidade de um olhar que envolva todos os aspectos da vida dos frequentadores da Cracolândia.
Pereira conclui que a cidade de São Paulo tem perdido oportunidades de tratar a questão da Cracolândia de forma estrutural e duradoura. Sua pesquisa contribui para um debate mais amplo sobre políticas públicas, defendendo uma visão humanizada que reconhece a dignidade e a complexidade dos indivíduos envolvidos. A verdadeira transformação, sugere ele, só será possível através de políticas sustentáveis e abrangentes que ofereçam alternativas reais para a população vulnerável, em vez de soluções meramente reativas.


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