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Dia Mundial da Conscientização do Autismo: Livros Essenciais nas Bibliotecas de São Paulo

Como apagar um estigma?

Por Fernanda Santiago

O dia estava tranquilo e do nada ela começou a chorar. Era uma tristeza sem fim. De repente o coração começou a disparar. A vontade era de correr, mas preferiu entrar debaixo do chuveiro com roupa e tudo. Vestiu uma calça jeans, uma blusa azul. Nem vestiu a calcinha. Não penteou os cabelos. Estava com vontade de se jogar do 14º andar, mas em vez disso pensou em correr. Ao invés do elevador, escolheu as escadas do prédio.
Ela correu pela praia. Entrou numa igreja, dessas que tem programas de televisão. Sua mãe foi atrás. De repente a menina estava lá no palco, enfrentando o pastor. Ela não lembra o que falou pra ele, mas lembra de acordar e ver um monte de obreiros em sua volta orando. Queriam fechar a igreja, mas o coração dela ainda estava acelerado. Parecia sentir que todos estavam desistindo dela.
A igreja era em frente à praia, tinha uma rampa alta. A vontade dela era se jogar dali. Tentou. Mas o seu namorado apareceu do nada e a segurou. Sua mãe e ele a colocaram dentro de um táxi. Ela achava que pessoas estavam lhe perseguindo. 
Foi levada a um hospital público. Ela achava que queriam lhe prender. A médica fazia perguntas, ela não lembra das perguntas e nem respostas, mas lembra que estava numa maca. Pessoas de todo tipo passavam por ali. Na hora de colherem seu exame de sangue ela pensava que queriam usar o seu sangue para algum tipo de magia. Foi um escândalo. 
Ela sentia medo de todas as pessoas que passavam pelo hospital. O sentimento era de que todas as pessoas ali gostariam de lhe fazer algum mal. Às vezes ela saia da maca e ficava pregando a salvação de Jesus para as pessoas, outras horas falava para os enfermos mais jovens que precisavam estudar, pois sem estudo é impossível ser alguém na vida.
Deram a ela um remédio e lhe deram alta. Dormiu por uns três dias. Quando acordou, olhava para as janelas, pois ainda acreditava que pessoas estavam lhe seguindo. Ficou um tempo sem ligar o celular e um bom tempo sem entrar em mídias sociais. Na cabeça dela, muitos estavam lhe perseguindo. Marcaram um psiquiatra pra ela. Novamente as medicações lhe fizeram dormir. Nos exames de sangue, sua tireoide estava muito alterada. 
Acordou dessa vez num estado catatônico. Não conseguia se mexer. Teve reações colaterais da medicação. Também falava mole.  Recebeu visita de parentes. Alguns juravam que ela estava usando drogas. Pessoas oravam por ela. Em algumas palavras ela dizia "Só os loucos sabem". Aos poucos ela começou a voltar para si. Ainda com os sentidos lentos, decidiu ir à sua faculdade para negociar o término da graduação. Deu certo. Aos poucos foi voltando para si, sem medo, mas totalmente estigmatizada de louca por muitos que a viram daquele jeito.
Ela tinha surtado! Mas ela vive, sonha e ainda acredita que: "Só os loucos sabem..."
...amar
...renascer
...encarar!
porque o que deprime são os outros.

 Obs: Quando você ver uma pessoa neste estado irá ajudar ou estigmatizar? Apoiar ou diminuir? Incluir ou excluir? A mente da gente é um carrossel. 

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